quarta-feira, 17 de setembro de 2008

“Uma experiência radicalmente pessoal”, por José Rafael Mamigonian

Dos encontros casuais com Seo Chico – como mero freguês da sua cachaça – foi se construindo uma relação de confiança e amizade entre nós que evoluiu para a missão de documentar este ser humano, seu modo de vida e sua história.

No começo, eram apenas registros fotográficos do engenho, aprendendo a lidar com sua luz muito especial. Nos altos contrastes dos exteriores, na contra-luz e na penumbra dos interiores, nas texturas e nos relevos daquela paisagem d’alma fui educando meu olhar. Cada nova visita ao engenho era uma oportunidade de melhor compreender o mundo de Seo Chico e de sedimentar a certeza de sua singular importância.

Depois de dois anos tomei coragem para começar a filmá-lo. Primeiro com equipamento de vídeo amador, em registros que serviram de material-base para o registro “profissional”. Adotava um método absolutamente intuitivo de apreensão da realidade: muito antes de compreender aquela história, eu precisava simplesmente filmar. Para poder “guardar”: ver e rever. Aprender como este olhar e este tempo se traduziriam.

Ele, por sua vez, mostrou uma disposição imediata em aceitar meu interesse. Percebia minha sinceridade crescente e aproveitava as oportunidades que tinha para deixar o seu “recado” sempre bem registrado. Para captar melhor cada um desses instantes, a câmera passou a ser um instrumento constante no acompanhamento das minhas tarefas diárias com ele. Ela precisava estar imediatamente à mão, para guardar os momentos que simplesmente não se repetiriam.

Da vontade de eternizar “melhor” Seo Chico, dessa vez em um filme documentário, nasceu o projeto original do que veio a se tornar “Seo Chico, um retrato”. Graças a um patrocínio inicial do Banco do Estado de Santa Catarina pude engajar uma equipe profissional para filmarmos, como extensão de uma abordagem que eu vinha desenvolvendo de forma absolutamente amadora.

Estávamos no outono de 1996 quando demos início à produção. A cargo das imagens do filme, tive a honra de poder contar com dois mestres absolutos do cinema brasileiro, dispensando apresentações: Mário Carneiro e Dib Lutfi. Para o som, convidei o também documentarista João Godoy. Pude também contar com o inestimável apoio de vários profissionais locais: o fotógrafo Charles Cesconetto assessorou e executou toda a elaborada iluminação de Mário Carneiro; Maria Emília de Azevedo assumiu impecavelmente a direção de produção desta filmagem, Fábio Fernandes também assessorava a produção e veio a ser o principal colaborador do projeto até o seu formato atual; e Orlando Baptiston, maquinista-chefe e produtor de set, completando a equipe principal.

Elaborei um roteiro de filmagens que se sustentasse como uma série de seqüências tal qual “um dia de trabalho de Seo Chico”. Documentamos as atividades principais do seu cotidiano, acompanhando-o conforme suas tarefas naqueles dias, tentando manter a naturalidade do seu ritmo de vida. Entretanto, não havia como omitir a presença da equipe em interação com aquele cotidiano. Ao assumir o registro dos bastidores e da relação entre nós e ele, algo diferente parece emergir das conversas.

Ao final das filmagens, para mim era nítida a “dualidade” gerada por registros com características distintas: um olhar é formal, etnográfico e austero; outro é mais físico, despojado, apaixonado. O trabalho de documentação não me parecia inteiramente concluído. Continuei meus registros pessoais, documentando o que viria a ser um “momento histórico”: a chegada da rede elétrica ao engenho do Chico.

Entretanto, o processo de documentação dessa história foi completamente transformado pela trágica notícia do assassinato de Seo Chico, ocorrido três meses após aquelas filmagens.

Algo intraduzível se abateu sobre mim: a suspensão de toda e qualquer lógica. Angústia, indignação e frustração perduraram por anos. Entretanto, guardava em meu íntimo o compromisso da missão assumida ao escolher documentá-lo. Uma série de questionamentos sobre o que perduraria desta história, a ponto de torná-la ainda pertinente aliados ao sentimento íntimo da paixão renovada e da revolta pelo “não-desfecho” das investigações sobre a morte de Seo Chico, nutriram a realização deste filme.

Durante a reestruturação do projeto, a ausência de Seo Chico se impunha por completo. Ao ver e rever o material filmado infinitas vezes, solidificava-se a certeza de sua potência emocional. Graças a um edital do Governo do Estado de Santa Catarina para a produção de um longa-metragem esse filme pôde ser concebido e realizado.

Após várias pesquisas, novas etapas de filmagem, extensas entrevistas com amigos, parentes e conhecidos, optei por priorizar o vigor que emanava do material filmado com Seo Chico vivo. Escolhi também circunscrever esses momentos à etapa “profissional” das filmagens e montei eu mesmo o filme que eu conhecia como a palma da minha mão, na confiança de que somente um olhar radicalmente parcial poderia traduzir o tempo emocional necessário para traduzir a eloqüência de Seo Chico sem macular a essência de sua alma.

Um comentário:

-~- disse...

Vim aqui todo empolgado pensando que encontraria um blog, com pessoas de verdade falando sobre os preparativos da semana, quem sabe uma entrevistinha com alguém. Nada.

O que encontrei foi uma colação de releases. Putz! Eu estava tão empolgado.

Mas enfim.
Me farei presente, participativo e blogueiro.
Bjo